A MARÉ QUE
DESAGUA NO MAR
A segunda edição da Ocupação Noite das Estrelas começou a ser sonhada ainda na Ocupação de 2023. Alimentadas pela felicidade que nos invadia. Ao som do mantra da convicção em coro se repetia: “A Noite das Estrelas está aqui!” Aqueles seis domingos foram materializações infinitas do que sonhamos por anos. Tudo isso rasgou nossas peles e penetraram na nossa alma a importância de especular e imaginar as existências LGBTQIAPN+, para além da brutalidade.
Para nós da Entidade Maré, o pilar da nossa pesquisa memorial, cênica e dramatúrgica sempre foi a homenagem e celebração das nossas ancestralidades. Abraçadas a elas, dançamos até deixar de ser corpo e produzir água, seja do suor escorrendo no corpo ou do molhar da emoção. Era preciso voltar ao mangue, virar Maré.
Naquele ano, a vingança que começou em 1980, levou mais de 7.000 pessoas para o festejo. Uma produção de milhões de imagens que revogam a dor e gravam na festa como a arte da pluralidade que pulsa universos que contêm milhões de cores, constelações que vibram felicidades coletivas. Naqueles domingos, o tempo parou a angústia cotidiana.
Colocaríamos a Ocupação na rua ainda em 2024. Mas o sucesso não garante a audiência e expansão orgânica da arte produzida por alguns corpos. O que nos fez estar em extrema ansiedade, diante da repetição do que ocorre cotidianamente no sufocamento da memória dos shows de 1980, mesmo em instituições da Maré. Manter este trabalho foi uma resistência consciente e fudida de que ainda seguimos arrombando portas com muito trabalho, suor e estratégia para conseguirmos circular por espaços artísticos naquele ano com parte do trabalho.
A percepção da força desse movimento tem agregado multidões, o que para a Entidade Maré, extrapola e agrega múltiplas dimensões e camadas que forjam na ocupação artística características de um movimento que se levanta em subvenção da violência que os LGBTQIAPN+ sofreram na década de 1980 e no presente momento. Um feito que traz uma arte que circunscreve a vida LGBTQIAPN+ favelada.
São mais de 40 anos desse desaguar na Maré, o que imprime no brilho dessa constelação um saber desfrutado e compartilhado entre dublagens, performances, figurinos e estéticas particulares ao evento. Nunca o show era repetido, a cada apresentação tudo novo, com exceção de Carlota dublando “Eu sou Zezé” e o momento final que tocava a música “Um ser de luz” na voz de Alcione, com todas as artistas no palco homenageando as que se encantaram.
Com isso, era preciso assumir que a Noite das Estrelas sempre foi maior do que imaginávamos. Um patrimônio imaterial tem essa autonomia que mora no encantamento do encontro, na transferência de conhecimento com outros. Este grito encontrou força em nosso coletivo e, em eco, seguimos bradando que a “Noite das Estrelas é patrimônio cultural imaterial!”
Em 2025, a segunda edição percorreu o mesmo trajeto durante quatro domingos, trouxemos novas bandeiras, fotos e artistas da década de 1980 que não tínhamos contato ainda. Jaqueline rebatizou a herança do seu avô, a rua O de fancha. Por quatro domingos, vimos Desirée subir na sua varanda, por uma escada, e criar uma cena do balcão entre as dramaturgias arquitetônicas da favela, para pedir Jaqueline em casamento. Tanto foi que, no encerramento da primeira parte da Ocupação, casaram, transformando a Quadra do Gato e a própria Noite das Estrelas num brejo, com direito a karaokê, beijaço e pagode.
Era preciso correr pela cidade e embarcar em novas dramaturgias. Deixar que a Maré da Noite das Estrelas corresse por novas terras e desaguasse no MAR. O caminho foi a pequena África. No lamento do negro em coro, convidamos os Exus para fazer o gurufim das vidas ancestrais no Cais do Valongo. Seguimos nessa noite preta com a QueenB Rull jogando a raba até a Pedra do Sal, para saudar e celebrar a fundação de uma das primeiras casas de axé do Rio de Janeiro. Pedindo licença e agô à Casa de Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá. Eu peço agô de mãe Aninha de Xangô. Além de pedir permissão para escrever a Noite das Estrelas naquela Pedra do Sal tão preciosa. Vendados, seguimos para a Praça Mauá, sentamos na sombra de uma árvore para ver a Baía de Guanabara, no descanso, sentindo o vento, o questionamento: “como ela, a baía, seria se nós saudássemos diariamente a ancestralidade originária?” Viramos rio e, de encontro com a baía, viramos pororoca. Ali mesmo, entre ambulantes, cimento, prédios e museus, a musa originária jorrou até se banhar de balde com as águas da baía.
Após isso, Exus apareceram em fumaça rosa e nos levaram para a porta do MAR, lugar da primeira vez que Legendary Dominick Baronesa desfilou numa ball. Um Exu vem fazendo algazarra, buzinando em sua moto, trazendo Kastellany, a filha de Dominick, que desce da moto, baila e dubla as palavras de sua mãe, eternizando que sempre haverá Verão. Sua bandeira estendida marca mais que o chão que pisou na sua primeira caminhada; ela também foi nossa casa. Aquilo era angelical, sua filha retinta deitada em seu colo em plena Mauá. Ela, gigante, a gente chorando de saudades.
Os rios que nasceram dos olhos nos levaram para o MAR. As artistas antigas, como griots, compartilharam com sabedoria das muitas Noites vividas por elas. Abrindo os trabalhos das dublagens para celebrar a primeira vez que pisamos num museu para gravar que essa é uma memória da cidade. Dançamos e cantamos em coro: “Êê faraó!” até o Bafo das Estrelas quebrar tudo com Mariwô. Foi apoteótico!
A Entidade Maré agradece a cada pessoa que esteve conosco, que colaborou da forma que pôde, das artistas que sempre quebram tudo e todos os profissionais, técnicos, apoiadores e parceiros que pegaram nosso bonde!!!
Ficha Técnica
Idealização e Pesquisa:
Entidade Maré
Direção Geral:
Paulo Victor Lino e Wallace Lino
Direção de Produção:
Bem Medeiros e Gabriel Horsth
Produção Geral:
Matheus Ribeiro
Produção Executiva:
Gael Affonso
Assistentes de Produção:
Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch - ETEAB/FAETEC, Helena Cícero, Leda Horsth, Lucca Lima e Sol Shakur
Dramaturgia:
Wallace Lino
Elenco:
Alec Vasconcelos, Arthur Azevedo, Codazzi Idd, Jaqueline Andrade, Kathita Gringa, Lívia Laso, Lua Brainer, Luiz Otavio, Marcela Soares, Milu Almeida, Monique Rayson, Peterson Oliveira e Preta Queen B Rull.
Convidades:
Kae Guajajara, Kastellany, Lorre Motta, Lorrany Sabatella, Natalhão, Van Preta, MC Ariel X, Adrielle Vieira, Mc Jessi, Mc Lizzie, POCKET, Ciana, Soraya Maria, DJ Hantz, DJ Buth, Tbergueston Martins, Jackson Costelo, Tamara Taylor, Andréa Miranda, Kethleen Cajueiro, The Overall Princess Legendary Wallandra, Leticia Vieira, Ballroom na Maré, Batekoo, Mariôw e Grupo Lance Certo.
Coordenação de comunicação:
Affonso Dalua
Social Media:
João Zabeti
Produção de conteúdo:
Thais Magalhães
Direção de luz:
Tainã Miranda
Operação de luz:
Domingos e Tainã Miranda
Montagem de Luz:
Domingos, Jon Tomaz, Debrá, Tainã Miranda e Felipe Magalhães.
Eletricista:
Cris
Direção de arte:
Paula Stroher
Operação e montagem de Som:
Diogo Nascimento, Panda e LF Sonorização
Design e Direção de Fotografia:
Affonso Dalua
Assessoria de Imprensa:
Affonso Dalua e Gabriel Horsth
Montagem de palco:
Marcelo
Acervo Figurinos:
Monique Rayson e Paula Stroher
Equipamentos de iluminação:
Artefatos Luminosos e Elétrica Cênica
Acervo memória coletiva (fotógrafes e produtores de conteúdo):
Aline Souza de Oliveira, Ana Carolina Fernandes Santana, Ana Clara, Arthur Viana, Beatryz das Mêrcez Gomes Silva, Carina da Cunha Santos, Conrado Dess, Diego Reis Botelho, Diogo Batista do Nascimento, Fernanda Piccolo Huggentobler, Gabe Ferreira, Helena Cícero Xavier, Hayon, Leon Diniz Lima junior, Leticia Oliveira de Souza, Lua Gomes, Marcelo Silva Almeida, Maria de Fatima Lima, Maria de Lourdes Rosa dos Santos Lima, Maria Eduarda Ribeiro da Silva, Maria João Barbosa Ribeiro, Marina Calderon, Marianna Bittencourt Guerreiro, Patricia Batista Pereira Dias, Raquel Marreiro Rodrigues da Silva, Ratão Diniz, Ray Vinicius Gomes Peixoto, Renan aldeia da Silva, Ruan Fernandes, Samuel Justino Melo, Siene Cerqueira, Stefany Vital da Silva, VERIDOMAR DA GLORIA, Vânia De Souza Albertini e Zion Martins.
Agradecimentos institucionais:
Redes da Maré, Mostra Maré de Música, Circuito Cultural Maré/Manguinhos um projeto do Museu da Vida Fiocruz, Areninha Cultural Municipal Herbert Vianna, Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch - ETEAB/FAETEC, Grupo Conexão G e Favelas, Centro de Cidadania LGBTI+ Gilmara Cunha, Centro de Artes da Maré, G.R.E.S Gato de Bonsucesso e Elétrica Cênica.
Agradecimentos:
Marcelo Campos, Thayná Trindade, Jean Carlos, Rafael Braga e equipe do Museu de Arte do Rio, Leonardo Moraes, Bruma Machado, Desiree Santos, Mônica Vieira, Viní Ventania e Vitória Jovem (Irmãs Brasil), Andrômeda, Madah Sodré, Ygor Eduardo e Maria Cândida, Gilmara Cunha.
